sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A Pintura Misteriosa de Rocco Caputo



   

                                                                Centauro, 150x130cm, OST                               

                 

    Tornou-se comum hoje a ideia de que a produção artística deve estar atrelada irremediavelmente à história sendo então uma espécie de subproduto dela. Como consequência desta concepção, o artista cuja obra é inspirada por ideais clássicos seria um artista que renega e dá as costas a seu tempo, a sua história, para qual estes ideais seriam ultrapassados, não servindo mais para nós, contemporâneos. Grande parte da produção artística atual é influenciada por este historicismo. Não é a toa a apropriação que se faz de termos tais como “modernismo”, “vanguarda”, “contemporâneo”, sempre querendo apontar para  o que estaria “à frente”, ou “o mais atual”, no sentido mesmo de evolução, da crença no mito do progresso, de uma ruptura com os velhos padrões.





                                             Ragnar, 40x50cm, OST


    Mas como não existe uma lei histórica que determine a produção artística, e sendo a essência da arte algo atemporal, pintar ao modo dos artistas clássicos e acadêmicos é também ser contemporâneo, assim como é contemporâneo apreciar e compreender a obra de um Bach e de um Shakespeare, já que nos falam de um mundo em comum, o nosso mundo humano, feito de sentimentos, amores, sofrimentos, crenças e esperanças.



                                               Mike, 50x40cm, OST


    Quando estive na abertura do Salão de Belas Artes de Piracicaba, em 2014, e vi pela primeira vez  uma obra de Rocco Caputo, o “Centauro”, percebi que estava diante de uma obra atemporal, que poderia muito bem ter sido produzida no séc. XVII, em pleno Barroco, mas que é atualíssima, não só pela força expressiva, mas também pelo tema mitológico, que nos fala de aspectos profundos de nossa psique, de nossos arquétipos, como diria Jung. A obra de Rocco Caputo é densa, tanto no aspecto estilístico, fortemente influenciada pela pintura Renascentista e Barroca, de altos contrastes de luz e sombra, como pela temática, ressaltando uma atmosfera de mistério não só nas pinturas mitológicas, mas também nos retratos e paisagens. Ele me falou de outros aspectos de sua obra, de sua formação e de seu pensamento na entrevista a seguir.


                          O Aconchego da Morte, 97x65cm, pastel seco  


    Como foi que a pintura entrou na sua vida e você decidiu ser artista plástico?
    Sou filho de um grande artesão do ferro forjado e grande decorador Antonio Caputo ( Italia 1923 - Brasil 1978 ) , foi ele quem percebeu que nasci desenhando , sempre desenhei , desde pequeno mesmo , além de incentivador meu pai me orientou nos primeiros desenhos , era ele um grande desenhista . Então devo dizer que ser pintor foi uma decisão quase pós parto ... hehehe .


                            Ciranda, 40x60cm, sanguínea, sépia e branco


    Quais foram as maiores influências na sua formação?
    Por ser filho de italiano , naturalmente o renascimento foi a primeira referência que tive sobre a arte , na adolescência foi aluno de um grande pintor ítalo-brasileiro Hugo Bendedetti (1913-1977) . Em 1986 fui para Itália estudar e me formar em pintura na Academia de Belas artes de Foggia , me formei em 1991 .


                                    Cláudia Helena, 32x20cm, pastel seco



    Hoje a arte de inspiração acadêmica é muitas vezes desvalorizada em relação à pintura meramente decorativa, fazendo com que muitos artistas talentosos se entreguem a uma linguagem mais comercial em detrimento de uma linguagem mais artística e poética. Como você vê esta questão e o conflito entre linguagem artística e linguagem comercial?
    Em meu trabalho prevalece a preocupação com a poética , a filosofia , o dever de salvar o sonho , é lógico que tudo isso passa longe da pintura comercial , confesso que tentei fazer essa tal arte decorativa e não consegui , acho que sou um burro teimoso ... hehehe .


                                         Eis o Nietszche, 63x49cm, carvão


    Quais as temáticas que você prefere abordar em seu trabalho e o que mais te inspira?
    O drama do homem , seu sonho , sua euforia dúvidas serão sempre minha temática , em meu trabalho procuro somar a força e a beleza .


                                                 Marx, 26x20cm, OST


     Muitos artistas procuram respostas para suas inquietações existenciais na filosofia e na religião. Seu trabalho incorpora influências filosóficas ou religiosas?
     Minha formação filosófica é a marxista e sou ateu  , procuro criar eu mesmo a minha mitologia , respeitando as religiões sempre .


                                            Foice e Martelo, 15x15cm, OST

    Vivemos hoje numa espécie de relativismo cultural. Tudo vale na arte. Qualquer coisa pode ser considerada como obra de arte. Para você, existem critérios objetivos para se avaliar o que é ou o que não é arte?

    Tenho opinião formada sobre arte , discordo dos leilões milionários de arte , faz parte né . Acredito que o tal relativismo cultural afastou as pessoas das exposições e da pintura 
mesma , arte e ver deve emocionar , fazer refletir ou somente admirar , arte é mensagem e a verdadeira mensagem não precisa de bula para explicá-la.



                                                  Frida, 54x40cm, pastel seco

4 comentários:

  1. Matéria fantástica. Parabéns pelo trabalho.

    ResponderExcluir
  2. Belíssima matéria. Lembro da obra mencionada no Salão de Piracicaba. Carrego a imagem em minha mente até hoje. Muito forte!

    ResponderExcluir
  3. Obrigado José, também fiquei impressionado pelo "Centauro". Grande abraço!

    ResponderExcluir