segunda-feira, 4 de maio de 2015

Marcos Sabadin e a Pintura Acadêmica






Depois de muitas décadas de experimentalismo que geraram muitos ismos na história recente da pintura, muitos artistas contemporâneos, aqui no Brasil e no exterior, estão se conscientizando cada vez mais da importância dos antigos valores acadêmicos para a arte.  Na própria pintura dita “contemporânea”, os que mais se destacam são artistas que tiveram uma formação rigorosa na linguagem figurativa.

Nietzsche dizia que as regras não são uma limitação para a arte, elas são a condição para a existência da grande arte. Isto significa que a desvalorização das regras que compõe e sustentam a  linguagem artística trouxe confusão e caos para as artes visuais. O movimento desconstrucionista na arte teve nas artes plásticas sua maior vítima, é nela que a dissolução da arte se fez mais sensível.

Mas porque uma volta ao passado? Porque regredir e abrir mão da liberdade criativa e da espontaneidade artística que são conquistas do modernismo e da contemporaneidade? A resposta é simples: todos estes conceitos, tais como liberdade, criatividade e espontaneidade, entre outros, tiveram uma interpretação bastante equivocada por estes movimentos. A libertação das antigas regras e disciplinas acadêmicas só trouxe desintegração e empobrecimento da linguagem, a criatividade se tornou essencialmente quantitativa e a espontaneidade perdeu o rumo, tornando-se um fluxo aleatório e inconsciente. Todas as “grandes conquistas” do modernismo e da contemporaneidade, de Pollock, de Duchamp, Beuys, Warhol, para citar assim os “grandes”, e suas obras, todas tornam-se anêmicas diante das verdadeiras conquistas na arte, representadas por gigantes da pintura como Velásquez, Goya, Rembrandt, Rubens, Bouguereau, Tiziano e tantos outros. Pois uma grande conquista na arte é ter criado obras que serão sempre paradigmáticas através dos séculos, por tocarem mais fundo no coração e na alma das pessoas. São estes últimos que vem inspirando artistas que estão cansados de tanta ausência de sentido, formalismo, relativismo, niilismo e desconstrucionismo na arte.


               "Retrato de Richard Schmid" óleo sobre tela, 40x50cm


Mas o que realmente conquistamos com uma revalorização da arte acadêmica? Ela visa recuperar para a arte seu verdadeiro sentido, que é e sempre foi a busca do Belo. O Belo na arte se traduz na expressão da verdade.  O Belo na arte é a manifestação da verdade. A verdade se manifesta na arte quando aquilo que a obra mostra possui essência. Assim, o artista fala de essências.  Ele capta as essências e imprime-as na obra. No mundo humano ele fala da essência do amor, da felicidade, do sofrimento, da tragédia, do êxtase, de sua relação com a natureza e com outros homens, em suas mais diversas formas e abrangendo toda a riqueza de conteúdo inerente a natureza humana. Nas artes plásticas, esta essência não se traduz por uma simples representação justa e fiel ao modelo, ou mesmo a uma busca mais conceitual atrelada a critérios seletivos mentais ou racionais. A essência transcende  o objeto visto como algo isolado, inserindo-o numa totalidade da qual ele necessariamente faz parte.


Artistas que procuram trilhar o caminho da arte acadêmica e clássica sentem a dificuldade de estar lutando contra uma sociedade antiestética, materialista e pragmática, que não valoriza a cultura e a arte. Hoje lhes apresento um destes artistas, que é mais um guerreiro da arte, e que por isso vem se destacando como um artista brilhante. Marcos Sabadin vive em Piracicaba,  cidade com muitos artistas de destaque e que promove todos os anos o mais importante salão de arte acadêmica do país. Além disso, a cidade de Piracicaba abriga um grande número de pintores praticantes de Plain Air, dentre eles Marcos Sabadin, que domina como poucos a arte de pintar ao ar livre, além de exímio retratista. Na entrevista a seguir ele fala um pouco sobre sua trajetória e sua visão sobre a arte da pintura.


                          "Vista para o Engenho" óleo sobre tela

Como foi que você decidiu ser artista plástico e quem foram seus mestres?

Me tornar Artista Plástico foi uma consequência natural, não houve exatamente um momento em que eu me decidi por isso. Desde a infância eu adorava desenhar e fui levado por esse gosto a começar a pintar também, quando me dei por conta eu estava totalmente envolvido com as artes plásticas e o que fiz foi somente dar sequência.
Inicialmente eu frequentei o atelier do artista Miguel Sanches. Depois de alguns anos passei a pesquisar o trabalho de muitos artistas e aprender com cada um. O contato direto e a troca de informações com outros artistas também contribuiu muito para meu desenvolvimento.


                                 "Autorretrato" crayon sobre papel


Com que pintores e estilos, atuais ou antigos, você mais admira e se identifica?

Eu sempre me identifiquei com a pintura realista, admiro muito os artistas do período barroco. Rubens talvez seja um dos meus favoritos desse período.
O realismo atual me encanta demais. Os artistas americanos talvez sejam os que mais se destacam pela qualidade e evolução do estilo, mas temos aqui no Brasil muitos artistas do mesmo nível.


                             "Helena!" óleo sobre tela 40x50cm


Com que critérios você avalia se uma obra de arte é boa ou deficiente, se madura ou amadora, expressiva ou inexpressiva?

Toda arte, num primeiro contato,  te deixa uma primeira impressão, e essa impressão vai depender da experiência individual de cada observador. Quando olho para uma pintura, por exemplo, automaticamente o meu grau de experiência, vivência e aprendizado deixam em mim essa primeira sensação de ser uma boa obra ou não, e isso dá a condição também de se perceber se a obra é madura ou amadora.
Depois em um segundo momento, busco uma análise mais crítica e detalhada em torno de aspectos relevantes como desenho, composição, cores, atmosfera, etc...(no caso de uma pintura ou desenho).
Quanto a expressividade, acho que é algo que se sente mesmo, algo que se olha e desperta alguma emoção ou sentimento.




Como você vê a produção e o mercado de arte na pintura atual?

Vejo a produção em grande evolução, há um grande número de artistas produzindo arte de qualidade. Já o mercado eu acho que não está no mesmo nível, principalmente fora dos grandes centros e galerias. Talvez isso ocorra por uma questão cultural, o brasileiro não tem por costume consumir arte.


                                 "Retrato"  crayon sobre papel


Em Piracicaba, sua cidade, há um forte movimento de artistas que praticam pintura ao ar livre. Qual a importância desta prática para o artista e o que você diria aos artistas que desejam desenvolver pintura plein air?

Acho importantíssimo essa prática de pintura, não só ao ar livre mas a pintura ao natural de forma geral. O contato direto com o tema, seja paisagens, um modelo ou mesmo uma natureza morta traz grandes desafios e aprendizagens.


                                           "Brasil - Futebol e Fé"

Pintores que se dedicam a  desenvolver uma arte de inspiração clássica ou acadêmica sentem, muitas vezes, dificuldade de entrar num mercado de arte dominado pela pintura meramente decorativa ou contemporânea. O que você pensa a respeito desta situação ?

Em todo segmento de cultura há uma “tendência” que se sobrepõe as demais, e na arte não é diferente. Acredito que são ciclos, o que não tem espaço hoje, amanhã será o grande modelo a ser seguido.
Penso que temos que nos manter convictos em nossa proposta e buscar um espaço, mesmo que alternativo.



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